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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A Gota Surfista e o Oceano:



O Tempo se manifesta como uma Grande Onda alimentada pela cadência ininterrupta de incontáveis ondulações menores, formas que se erguem, desfazem-se e renascem a cada instante. Mas o tempo não se move no vazio, a Consciência é a própria água que compõe tanto a imensidão quanto a menor das dobras da maré.

Para conhecer a si mesma, a Consciência escolhe se concentrar. Assume a forma provisória de uma gota surfista, aceitando os limites da individualidade para experimentar a jornada. Ao encarnar essa perspectiva, ela aprende as regras do mar: sintoniza-se com os ritmos dos ciclos, observa as pressões do ambiente externo e passa a reconhecer as correntes que agitam seu próprio interior.

Em certos momentos de lucidez, a gota ascende à crista da onda maior e avista a vastidão: trilhões de outras ondulações com suas trajetórias singulares, miríades de gotas espalhadas por todo o horizonte, cada qual absorta em sua própria travessia.

Toda viagem, contudo, tem sua praia. Após a longa travessia, a gotinha alcança a margem. Ela toca suavemente a areia e testemunha, ainda que por um fugaz vislumbre, o calor da vida ao redor, os pezinhos descalços de uma criança brincando à beira d’água. Nesse instante, o anúncio da reintegração se faz inevitável. Diante da iminente dissolução da forma individual, surgem o sobressalto, o aperto involuntário e o tremor. É o clássico susto do ego perante o desconhecido. Ao mergulhar na areia, o contorno se esvai e a gota retorna àquilo que, em essência, nunca deixou de ser: o Oceano. Fica apenas o eco de uma eterna pergunta: voltará a surfar?

Essa dinâmica entre a parte e o todo se revela de maneira palpável na prática da presença meditativa.

No estado comum de vigília, a mente tende a se enredar nos enredos que ela própria fabrica. Quando recordações de fatos, cenários ou pessoas emergem, o impulso ordinário é morder a isca da narrativa: alimentar diálogos internos, fantasiar desdobramentos ou julgar retrospectivamente o que já passou.

Contudo, quando a mente se ancora na pura presença, essas mesmas lembranças deixam de ser histórias e passam a se comportar como leituras em um scanner. Elas revelam diretamente ao observador silencioso a sua verdadeira natureza, seus padrões vibratórios impressos na carne. Cada vivência pela qual o ser passa, seja ela feliz ou dolorosa, deixa nós energéticos e tensões somáticas que continuam a pulsar em frequências que por vezes se escondem.

É aí que o clichê "somos a soma de nossas experiências" perde a banalidade e ganha uma dimensão esotérica e visceral. Não somos a memória enquanto biografia contada, mas sim a estrutura vibratória viva que essas passagens sedimentaram em nosso campo vibratório.

Retomando a imagem da gota no mar: estar presente é aprender a acompanhar as correntes sem se afogar em seus relatos. É perceber que, ao navegar o próprio fluxo com atenção plena, cada gota alimenta o curso da Grande Onda. Constatar isso é  perceber a reciprocidade cósmica e inescapável desse movimento: somos sustentados e impelidos pela maré do Tempo, mas essa maré só existe e ganha força a partir da pulsação de cada gota que ousa surfar.

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