O sono exerce uma atração vigorosa, apresentando-se frequentemente com um ímpeto mais denso e magnético do que o próprio estado de vigília. Ao adormecer, o corpo físico encontra o merecido repouso e abre-se o portal onírico das imagens; no entanto, esse mesmo recolhimento pode transmutar-se no refúgio cômodo da inércia e da procrastinação existencial. Em contrapartida, estar acordado durante o dia não é sinônimo automático de lucidez: inúmeras vezes transitamos pela vigília em pleno automatismo, absortos em devaneios, ilusões e dispersões, fisicamente despertos, porém psiquicamente adormecidos.
O verdadeiro cultivo da atenção plena transcende os limites biológicos do descanso e da atividade. É perfeitamente viável sustentar a presença e o discernimento no interior do próprio sonho, ainda que o domínio desse método exija uma disciplina e um rigor tão profundos quanto a prática consciente no estado de vigília.
A vigília, por si só, não assegura a conexão com o Ser, assim como o sono não constitui, inevitavelmente, um abismo de inconsciência.
Estar acordado não garante a vigília da alma, assim como o adormecer do corpo não aprisiona uma consciência que aprendeu a permanecer desperta.
Se o estado do corpo, seja repousando ou seja em atividade, não é a causa determinante do despertar ou da dispersão, onde reside o verdadeiro ponto de inflexão? O eixo central de todo o domínio interior situa-se na mente.
É a qualidade da mente que define o grau de presença em qualquer plano da experiência humana: ela é o princípio ordenador capaz de trazer lucidez às profundezas do sonho ou de dissipar as névoas automáticas do cotidiano em vigília. Dominar a mente é, em essência, manter a chama da autoconsciência perenemente acesa.
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